12 de maio de 2016

A Vida Imitando a Arte


Algumas pessoas dizem que o cinema é a arte imitando a vida. De uma forma genérica, isso é verdade, muitas coisas retratadas nos filmes são inspiradas ou baseadas em fatos reais. Nós, adoradores de filmes de terror, já cansamos de ver artigos sobre os "top 10 melhores filmes de terror baseados em fatos reais". Daí poderíamos citar os filmes: O Exorcismo de Emily Rose (2005), O Exorcista (1973), Terror em Amityville (1979) e o seu remake de 2005, Invocação do Mal de 2013 (tanto a parte um quanto a parte dois que vai ser lançada em 2016), O Brinquedo Assassino (1988) e até A Bolha Assassina (1988) e o seu filme original de 1958. 

Se você parar para pensar, a grande maioria dos filmes de terror têm um dedo de verdade no meio, mas é claro também que o cinema "melhora" a historia para ela ficar mais atrativa para o público, daí nós temos os filmes "baseados ou inspirados" em fatos reais, mas nada do que é mostrado no filme aconteceu 100% da forma que é retratado nele. 

Mas, o que vou discutir aqui, não é sobre filmes baseados em fatos reais, mas sim sobre fatos reais baseados em filmes. Não é a mesma coisa e é mais comum do que se pensa. Como o blog da qual escrevo é para filmes de terror, obviamente que irei debater sobre casos relacionados a filmes do gênero. Além disso, o texto em questão será um pouco acadêmico, usarei autores de livros e suas teorias para justificar as ideias postas aqui no que se diz respeito a teorias de comunicação de massas, isso tudo vai estar ligado aos conceitos da teoria Pós-modernista. Então vamos lá.

Primeiro de tudo, quero falar com vocês sobre a teoria hipodérmica e a híper-realidade. Elas vão ser muito importante e vai ajudar a entender muita coisa desse texto.

Existem muitos autores que explicam a teoria hipodérmica, dentre eles está o Wolf (1985), e vai falar que ela tem os seus estudos baseados na comunicação de massas e tem uma preocupação com o cidadão que é visto como um ser isolado tanto fisicamente quanto psicologicamente, ou seja, não existe comunicação interpessoais entre as pessoas, e se existe, não vai importar para o processo de comunicação. De uma forma mais vulgar, seria como se você dissesse: "Essa é a minha opinião desse filme, se a sua é diferente, ok... Mas, não me importa". E de uma forma geral, a teoria vai falar como as pessoas são influenciadas pelas coisas que elas veem nos filmes, vou explicar essa ultima parte mais para frente.

Outra coisa que preciso falar, é sobre o híper-realismo é outro termo importante e que vai ser usado no decorrer desse artigo. O Hiper-realismo é descrito como um indício de uma expansão da cultura pós-moderna. Essa hiper realidade é o meio de individualizar a via de interações conscientes com a 'realidade'. De uma forma mais simples, é quando uma pessoa perde a habilidade de distinguir a vida real do mundo da imaginação. Se você já repetiu a fala de algum filme para conversar ou já se comportou como um personagem de algum filme que você gosta, então você entrou na híper-realidade.

Baudrillard, em seu livro "Simulação e Simulacro" (pagina 46) diz: "Por toda a parte, em todo e qualquer domínio, politico, biológico, psicológico, mediático, onde a distinção dos dois polos já não pode ser mantida, entra-se na simulação e, portanto, na manipulação absoluta - não há passividade, mas a indistinção do ativo e do passivo [...] Uma única nebulosa indecifrável nos seus elementos simples, indecifrável na verdade".

Com a exposição acima acerca da teoria hipodérmica e do hiper-realismo pode-se dizer que o cinema tem esse 'poder' de mudar o comportamento dos indivíduos fazendo com que essas pessoas façam determinadas coisas que podem gerar consequências graves no mundo contemporâneo.

Partindo desse principio, o filme Jogos Mortais (Saw, 2004), foi o catalisador de um caso criminoso nos Estados Unidos. Na ocasião,  uma mãe que morava em Salt Lake City, denunciou o filho e um amigo dele à policia após ouvir conversas em que os dois estariam planejando sequestrar, torturar e matar pessoas baseando-se nos jogos sádicos da franquia "Jogos Mortais". A dupla, que tinha entre 14 e 15 anos, confessou para a policia na época que tinham a intenção de "dar uma lição" nas pessoas que eles julgavam prejudicar outras pessoas, utilizando os mesmos mecanismos utilizados pelo vilão do filme, Jigsaw. Eles teriam adquirido uma maquina fotográfica para documentar as atrocidades que iriam fazer. Esse caso mostrou como o cinema contribuiu para a delinquência de jovens que se basearam nos mesmos, dessa forma, aumentando a taxa de criminalidade do país.


Ainda falando sobre Jogos Mortais, um trote relacionado ao filme acabou muito mau e quase acontece uma tragédia. “Prendemos uma amiga sua em algum lugar da casa. Você tem 10 minutos para encontra-la e arrancar seu coração, ou o edifício ficará repleto de gás venenoso. Esse é seu jogo: quer viver ou morrer?”. Esse foi o texto que correspondia o trote de duas garotinhas de apenas 13 anos que fizeram com a idosa Beverly Dickson, em 2007. Bervely, tinha problemas de saúde e acabara de chegar em sua casa após um funeral, com o susto da brincadeira ela sofreu um derrame cerebral. Sobreviveu, mas adquiriu sequelas desde então. As famílias das meninas tiveram que pagar uma indenizações.

Nem o Brinquedo Assassino deixou de ser "inspiração" para atos criminosos... Um dos casos a respeito foi na Inglaterra onde um garoto de apenas 3 anos chamado Jamie Burger, foi sequestrado num shopping e assassinado por dois garotos.  O filme foi centro de um tabloide de pânico na época,  e no jornal The Sun. Os jornalistas diziam que o filme tinha influenciado os dois garotos a matar, pois havia uma mancha de tinta azul na criança tal como acontece com o Chucky no Brinquedo Assassino 3, e também haviam pilhas dentro do garoto dando a entender que os assassinos o "transformaram" no Chucky. Após as investigações, foi constatado que os assassinos não haviam assistido ao 'Brinquedo Assassino 3' que era o lançamento da época. Só que isso nunca foi confirmado.

Outro caso, e mais grave ainda, não envolve um filme de terror, mas o personagem em questão causa mais medo que muitos personagens do gênero. Estou falando do Coringa, e esse ocorrido mostra que a influencia do cinema é forte e pode causar a manipulação da mentalidade do individuo que o assiste.

O caso aconteceu em 2012, deixou 12 mortos e 58 feridos durante um tiroteio dentro de um cinema durante a sessão de "Batman O Cavaleiro das Trevas Ressurge", fato esse ocorrido na cidade de Aurora no Colorado. James Holmes foi o atirador em questão, com cabelos pintados de laranja e gritando "Eu sou o Coringa", abriu fogo contra o públicos sem se importar com as consequências de seus atos, mostrando na pratica o quão uma pessoa pode ser influenciada pelo cinema.



Não vou me estender a explicar todos os casos que conheço sobre filmes que inspiraram casos reais. Contudo, acho que em meio a essa discussão, entra um filme da qual falarei sobre ele daqui para frente. É claro que esse filme gerou alguns acontecimentos e vou ter que falar sobre eles para dar base ao longa em questão.

Esse filme é interessante e ganhou um destaque por causa do lançamento em 2015 de uma série inspirada na franquia, trata-se da saga "Scream". Ela também é oportuna ao que estou falando aqui porque mostra os conflitos envolvendo os cidadãos em relação as ideias absorvidas no filme, e isso é o que provoca atos de criminalidade dentro do país em que esse individuo está inserido.

Vários ataques e mortes inspiradas em 'Scream' já foram feitas. A relação com esse filme? Os assassinos usaram a mascara do vilão (Ghostface) dos longas para cometer as suas atrocidades. O caso mais recente aconteceu no Brasil onde um homem usando a mascara do assassino, matou um rapaz com quatro tiros. Para quem não sabe, a fantasia em questão simboliza a morte. 

Também houveram casos nos Estados Unidos e pelo mundo afora como o de 1996, onde Daniel Gill (de apenas 14 anos) e Robert Fuller (de 15 anos) deram 18 punhaladas em um amigo, em Harrogate, Yorkshire, Inglaterra. Seu advogado afirmou que a tentativa de assassinato, à qual a vítima sobreviveu, se deu porque ambos acreditavam receber mensagens sobrenaturais do próprio Ghostface. 

E ainda na Europa o caminhoneiro belga, Thierry Jaradin, chegou ao extremo de vestir a túnica e a máscara do assassino, para acabar com a vida de Alisson Cambier, uma garota que o havia rejeitado.

Como um todo, a saga usa em grande doses, a metalinguagem para se locomover. Voltado para o terror, a franquia mostra um assassino que adora filmes de terror que decide fazer o seu próprio filme na realidade usando tudo o que ele aprendeu vendo esses filmes. Em cada capitulo, um assassino usa uma justificativa para o seu massacre, e cada motivo reflete numa critica social que está fortemente relacionada com a teoria hipodérmica onde o telespectador absorve a mensagem do filme e usa isso para os atos criminosos sem raciocinar se isso é certo ou errado. Como, por exemplo, o quarto capitulo da franquia lançado em 2011 critica a ideia da fama a qualquer preço e da banalização da tragédia com o enfoque num conceito errôneo de heroísmo, onde matar um assassino e sobreviver a massacres é um ato de heroísmo e de fama instantânea.

A ideia da fama pela fama abordada no filme, reflete a visão desvirtuada de que o prestigio vem quando algo ruim acontece com essa pessoa. Fazendo uma comparação, temos o caso de Geisy Arruda no Brasil, onde em 2009 ela ganhou fama internacional por ter sido hostilizada na faculdade UNIBAN (Universidade Bandeirante de São Paulo) unicamente por estar usando um vestido cor de Rosa e curto. O caso ganhou um impacto internacional, chegando a ser noticiado no The Guardian (Jornal Britânico) e no New York Times (Jornal Americano). Atualmente, Geisy fez participações em filmes, programas, clips musicais e em reality show. Dando assim, veracidade as ideias sustentadas em Pânico 4.

"Meus amigos, em que mundo você vive? Eu não preciso de amigos, preciso de fãs. Não entendi isso?A intenção nunca foi matar você, a intenção era ser você. Pelo amor de Deus, a minha mãe teve que morrer, não foi uma grande perda, então posso me manter fiel ao original [...]. Vem cá, o que eu tinha que fazer? Ir para a universidade, fazer cursinho, trabalhar? Olha a sua volta, a nossa vida é publica, estamos todos na Internet. Como você acha que as pessoas ficam famosas hoje em dia? Você não tem que fazer nada de especial, tem que acontecer alguma desgraça com você. Então você tem que morrer, novo filme, nova franquia [...]".

A citação acima se refere a uma conversa que a assassina dá para a protagonista, tentando justificar os seus atos de violência onde é alegado que para ser famosa, teve que repetir um massacre ocorrido há mais de 10 anos na cidade, como se fosse um filme, para que ela pudesse ser a personagem da prima na vida real, á vitima dos massacres e heroína a por ter matado os assassinos passados. Através das regras que o filme sugere que as películas do século XXI devem ter para obter um sucesso, quanto mais violento for, melhor será, e com a Internet acessível a todos, qualquer pessoa pode fazer o seu filme e colocar na rede onde milhares de pessoas vão ver. Nessa parte, fazendo uma clara referencia ao processo de globalização onde o mundo está a um clique de você.

Além disso, o texto reflete a ideia pós-moderna onde o antagonista lida com um mundo que não é mais dela, ou seja, hiper-realidade, que conformes os conceitos explicados por Baudrillard, e admitidos por Alveson e Deetz (2010) na qual complementam que esse termo é usado quando ocorre a substituição do mundo real em que as simulações tem precedência sobre a ordem social contemporânea; e a queda das grades narrativas, trazendo a tona o paradigma pós-moderno para debate e reflexões, onde a vilã sonha em vender uma imagem que não é dela, mas sim a de sua prima.

E para encerrar esse ponto, Moraes (2004) afirma que vivemos em um época de caos e de confusão. São tempos de competitividade onde as pessoas são guiadas pela logica da acumulação de bens e de aparências. Então, dentro do contexto pós-moderno, os indivíduos podem agir passando por cima de valores que sequer chegaram a formar, e o importa é ser reconhecido, ser admirado, ter acesso a uma infinidade de produtos e serviços e aproveitar ao máximo do prazer.  

Mais um ponto que preciso esclarecer é que o cinema tem o poder de abrir novas portas de visões para o público, muita gente passa a refletir melhor sobre um determinado assunto quando a ideia é posta e interpretada. É como Rennier (2015) diz:

"Há uma necessidade de ir além das aparências e do que é tido como realidade. Para aqueles que apenas olham superficialmente e sem uma necessária critica ao que lhes é apresentado, apenas observando o que lhes é oferecido em seu dia a dia, muitas coisas são tidas, por vezes, até como verdades de fé. Sabe-se que nos encontramos em uma realidade capitalista e que tentará manter-se de pé; que melhor meio de fazer isso do que através da manopla. Marionetes de suas ideologias, do que através do constante incutir ideias e vontades na mentalidade, desta coletividade (grande massa da população mundial) pela da mídia".  

Em suma, os dizeres acima afirmam que um filme não pode só ser visto... Ele precisa ser interpretado e a pessoa que o interpretou precisa ter um senso critico sobre o que está vendo. Dessa maneira, a teoria hipodérmica e a hiper-realidade não aconteceriam de forma à prejudicar a vida dos indivíduos a sua volta.    

Então, com o exposto acima, podemos perceber que os filmes influenciam as pessoas muito mais do que se imagina, e que infelizmente, algumas pessoas deixam-se influenciar pelas coisas ruins dos filmes, dessa forma, transformando o seu mundo real num faz de conta e trazendo essas ideias ruins dos filmes para a realidade, assim, provocando casos criminosos no mundo. E a partir dessa visão, espero que vocês tenham entendido, não creio que esse texto seja uma leitura fácil se comparado com outros artigos que já escrevi no blog. E também espero que eu tenha conseguido fazer vocês pensarem sobre algumas coisas como, o quão influenciado você já foi pelo cinema. Até a próxima.


Por: Michael Kaleel. 

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