22 de abril de 2017

Crítica: O Nevoeiro (2007)


Talvez uma das adaptações mais subestimadas de Stephen King, O Nevoeiro (2007) tem como base um conto que está presente na coletânea de contos Tripulação de Esqueletos. Segundo King, a ideia veio de quando certa vez, o mesmo estava esperando numa fila de um supermercado e se perguntou o que aconteceria se insetos gigantes tentassem quebrar a portaria toda feita de vidro.

A adaptação veio da cabeça de Frank Darabont, que era apaixonado pela história desde que leu nos anos 80 e vinha tentando trazê-la para as telonas há décadas. Depois que ganhou renome com outras duas adaptações de King - Um Sonho de Liberdade (1994) e À Espera de um Milagre (1999) -, Darabont pôs em prática a produção, que só veio achar uma casa na Dimension Films já que outras produtoras queriam mudar o controverso final - já editado pelo próprio Darabont no roteiro e elogiado por King.


A história base de O Nevoeiro chega a ser seguinte de fórmula se olhar de uma forma mais geral. Assim como outras escritas por King, ela traz várias pessoas aprisionadas em um local com perigos no exterior. Neste caso, são pessoas presas em um supermercado no Maine enquanto uma estranha névoa azola o lado de fora. O principal é o artista de posters David (Thomas Jane, O Justiceiro), que junto com seu filho Billy, vai ao supermercado para comprar suprimentos e ficam sem saída assim como várias outras pessoas da cidade.

Não demora muito para eles perceberem que não é um nevoeiro corriqueiro pois David e outros presenciam um ataque no depósito do supermercado onde tentáculos gigantes tentaram entrar por uma porta dos fundos e ainda levou um dos empacotadores de forma brutal. Eles logo associam às histórias que o povo contam sobre a base militar nas montanhas próximas à cidade onde "faziam" experiências.

O mais legal de O Nevoeiro é que apesar de todo o esquema de "pessoas em conflito presas num lugar enquanto algo acontece no lado de fora", ele não fica em uma zona de conforto. Aliás, ele não se prende apenas ao suspense mas sim às situações geradas pelo confinamento de pessoas diferentes em um mesmo espaço. Portanto um dos pontos mais altos do roteiro foi manter o confronto ideológico entre os personagens, como a fanática religiosa (Marcia Gay Harden) que logo separa o grupo com seus discursos de salvação.


Portanto, o foco não é nas criaturas nem nos ataques delas, embora hajam cenas bem interessantes que envolvem tentáculos e insetos gigantes atacando o pessoal, sem falar no final. Mas o fato do roteiro de Darabont ter dado o foco às interações entre os personagens é o que difere O Nevoeiro de outras produções semelhantes. De certa forma, é uma abordagem sociológica bem interessante sobre como as pessoas reagem ao medo.

Mas, apesar da longa duração e dos elogios que falei nos parágrafos acima, confesso que gostaria de ver mais algumas criaturas. Pode parecer meio contraditório mas acho que daria pra explorar outros monstros em cenas criativas (pelo menos na minha cabeça, rs), além dos apresentados no filme. Por falar nos monstros do filme, talvez os efeitos pareçam meio mal-feitos e isso pode incomodar alguns, mas as ideias das cenas são legais, com destaque na cena final onde aquele monstrão à-lá Lovecraft caminha pela cidade.

Ah, e não posso deixar de comentar sobre o infame desfecho do filme. Atenção pessoal que ainda não viu o filme, vai ter spoilers neste parágrafo. Após conseguir sair do supermercado, David, seu filho, um casal de idosos e a simpática professora novata fogem num carro até que o mesmo quebra. Sem saída, eles resolvem fazer um pacto de suicídio com a arma da professora. David então mata todos no carro - incluindo seu filho pequeno - mas falta a bala que seria usada nele mesmo. Ele sai do carro esperando ser morto por uma das criaturas mas se depara com o exército chegando com carros de sobrevivente! Um verdadeiro soco no estômago e que, reparem, não está no conto. Esse final foi criado pelo Darabont desde que ele planejou o filme e sua única condição para com as produtoras era que mantivessem o final pessimista! King falou que adorou a ideia e ficou chocado ao descobrir que Darabont tirou ela do próprio conto, numa certa parte onde o personagem dá a entender que está cogitando a situação.

Também é legal ver que Darabont tentou deixar o nevoeiro nas entrelinhas. No conto por exemplo não há explicação para a origem da bruma, embora no filme seja "explicado" que a culpa veio de experiências militares interdimensionais realizadas nas bases próximas à cidade. Haveria até uma cena de abertura que mostraria o acidente no laboratório que abriria um "portal" entre as dimensões, permitindo que a névoa e as criaturas adentrassem no nosso mundo.

Fico imaginando qual será a explicação - se houver uma - que darão na vindoura série The Mist, que adaptará o conto em 10 episódios e estreia em Junho. Na série, veremos vários personagens presos em diferentes locais da cidade como uma igreja e um shopping. Vocês podem ver o trailer da série aqui.


por Neto Ribeiro

Título Original: The Mist
Ano: 2007
Duração: 126 minutos
Direção: Frank Darabont
Roteiro: Frank Darabont
Elenco: Thomas Jane, Laurie Holden, Marcia Gay Harden, Andre Braugher, Toby Jones, William Sadler, Jeffrey DeMunn


Description: Rating: 4 out of 5

2 comentários :

  1. Olá, alguém poderia me dizer quais são as diferenças do final do conto e do filme ?

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    1. No conto, David e os sobreviventes escutam no rádio um possível local de sobreviventes. A história termina com eles indo em direção ao local.

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