15 de maio de 2017

Bem-vindos à Twin Peaks


por Neto Ribeiro 

Sejam bem-vindos à Twin Peaks. Uma cidadezinha do estado americano de Washington e próxima do Canadá que tem 51.201 habitantes, onde todo mundo se conhece. É uma cidade pacata onde nada demais acontece até que no dia 24 de Fevereiro de 1989 o corpo da jovem Laura Palmer é encontrado enrolado em plástico na beira de um lago. A moça de apenas 17 anos era bastante querida na cidade, era a rainha do baile de sua escola, voluntária em um programa de alimentação para necessitados e amiga de todos. Portanto, seu assassinato chocou bastante a população.

Ao longo de 30 episódios, nós vemos a cidade onde nada é o que parece ter seus segredos obscuros postos à tona com a ajuda de Dale Cooper (Kyle MacLachlan), um agente do FBI que chega à Twin Peaks para investigar a morte de Laura Palmer, que parece ter correlação com outro assassinato ocorrido em outro estado.

Atenção: O post a seguir pode conter spoilers. 

Esta é, basicamente, a síntese mais superficial da série Twin Peaks que eu poderia escrever para abrir este post. Muitos que não conhecem a série não imaginam a importância que ela teve para a televisão americana e como a mesma influenciou o formato de se fazer séries e influencia até hoje. Neste artigo, irei falar da série, como uma antecipação para a terceira temporada, que estreia próximo domingo (dia 21), vinte e seis anos após a última exibição de um dos seus episódios.

O projeto foi criado por Mark Frost e David Lynch. Este último já era um renomado nome no cinema por seus filmes controversos e complicados. No currículo, o cara tem Eraserhead (1977), O Homem Elefante (1980), Veludo Azul (1986) e Cidade dos Sonhos (2001) - ou seja, só filme sem noção! Sua tentativa de trazer uma história à TV se deu em Twin Peaks, que estreou no ano de 1990.

O episódio piloto, que tem a duração de um filme, quebrou recordes de audiência, somando 34.6 pontos. A primeira temporada consiste de apenas 8 episódios e parou vários lares americanos que viriam a acompanhar a nova cidadezinha favorita da TV. O que muitos não sabem e não tem ideia é que Twin Peaks foi uma série vanguardista na época. Os Estados Unidos se despedia dos anos 80 e as maiores séries de sucesso eram comédias de 25 minutos. Quando Lynch e Frost chegaram com seu projeto, exibido originalmente na ABC, muitos se viram fisgados pelos mistérios que Twin Peaks guardava.

A série, por incrível que pareça, mudou o formato de shows e digamos que estabeleceu até um padrão. Diversas séries de mistério que se seguiram após o fim de Twin Peaks copiaram do seu modelo, que hoje em dia é usado e abusado. Um exemplo? Um assassinato que ocorre no primeiro episódio e cuja resolução dura uma ou mais temporadas. Foi daqui que saiu. A fórmula deu tanto sucesso que todo queria saber "Quem matou Laura Palmer?", um dos slogans da série.

Para vocês terem uma ideia, confira o que atuais showrunners disseram sobre ela:

"Tudo era muito misterioso. O clima, as árvores, até as rosquinhas. [David] Lynch tirou as sequências dos sonhos do fundo de seu inconsciente. Qualquer um que faz uma série de drama hoje em dia e que diz que não foi influenciado por Lynch está mentindo." - David Chase, Os Sopranos

"A experiência completa de Twin Peaks - imagens, som, música e os personagens estranhos e carismáticos - foi diferente de tudo que já vi. A ambiguidade proposital vai manter meu cérebro agitado para sempre." - Carlton Cuse, Lost e Bates Motel

"Lynch é perturbador, brilhante e de vez em quando, hilário." - Jane Campion, Top of the Lake

"Enquanto muitos dos meus amigos eram obcecados com esportes e festas, eu era obcecado pela série. Esse afastamento da sociedade adolescente me deu tempo livre para escrever minhas histórias. Meu amor pelo mistério e a ambiguidade dele nasceu na pacata e estranha cidade." - Damon Lindelof, Lost e The Leftovers


Como falei, a série mostra a ida de um agente do FBI, o Dale Cooper, à pequena cidade de Twin Peaks onde ocorreu o assassinato de Laura Palmer (Sheryl Lee). Ele é bem-recebido pelo simpático Xerife Harry (Michael Ontkean), seus policiais Andy (Harry Goaz) e Hawk (Michael Horse) e sua recepcionista Lucy (Kimmy Robertson). Paralelamente à trama principal, conhecemos diversos outros personagens com suas tramas, que podem envolver meros relacionamentos, uma conexão com o assassinato de Palmer ou tramas independentes que envolvem tráfico de drogas, jogos de interesse, etc.

O elenco jovem é liderado pela melhor amiga de Laura, Donna (Lara Flynn Boyle) e seu namorado secreto James (James Marshall), que nutrem uma paixão após a morte dela. Há o namorado "oficial" de Laura, o Bobby (Dana Ashbrook), que mantinha um caso com a garçonete local Shelly (Madchen Amick). A própria Shelly era casada com o perigoso Leo (Eric Da Re). Há também a misteriosa ninfeta Audrey Horne (Sherilyn Fenn), que é de longe minha personagem favorita da série.

Shelly trabalha no restaurante local, o Double R, comandado pela simpática Norma (Peggy Lipton), cujo marido Hank (Chris Mulkey) está cumprindo pena por assassinato e está prestes a sair. Norma tem um caso com Ed (Everett McGill), seu ex-namorado de escola que atualmente é casado com a pirada caolha Nadine (Wendy Robie).

Há outra trama que envolve as grandes empresas da cidade: o Great Northern, um hotel cinco estrelas bem-frequentado que pertence à Benjamin Horne (Richard Beymer). Horne tem um caso com Catherine Martell (Piper Laurie), irmã do falecido Andrew Martell, proprietário da serraria local. Após sua morte, a serraria ficou para Josie Packard (Joan Chen), a jovem e recente esposa do mesmo. Catherine planeja dar um golpe e retomar a serraria mas não espera que Josie também tenha seus planos.

Este são apenas os arcos normais da série, já que temos também os arcos surreais que envolvem os estranhos sonhos que Cooper tem a partir do momento que chega na cidade. Neles, o agente está numa sala cercada de cortinas escarlates com um piso preto e branco, acompanhado de um anão dançante e uma moça parecida com Laura Palmer. As cenas que envolvem estes sonhos e outras visões de Cooper são sempre estranhas e bizarras e tem exatamente o dedo de Lynch no meio.

E é justamente nestes arcos que está o assassino de Laura Palmer, onde descobrimos da forma mais assustadora possível que é um tipo de entidade demoníaca conhecida por "Bob" (Frank Silva), que possuía frequentemente Leeland Palmer (Ray Wise), o pai de Laura. Ou seja, tecnicamente Leeland também foi o assassino da filha, mas sob influência de Bob. O grande vilão da série protagoniza diversas cenas de arrepiar a espinha, devido à direção, a trilha sonora usada e pelo ator mesmo.


Assistindo-a hoje em dia, ela soa cansativa, não vou mentir. Digamos que muita coisa em Twin Peaks serviu de protótipo. Vários elementos estavam sendo testados pela primeira vez. E enquanto hoje em dia temos um formato mais redondo depois de duas décadas de "evolução", a cópia bruta original pode parecer um pouco experimental demais para nós que somos acostumados com uma história mais direta.

Acontece que Twin Peaks ainda pegava emprestado algumas características das soap-operas, que é como são conhecidas as novelas americanas, que chegam a durar mais de 50 temporadas. Essas características são por exemplo o desenvolvimento dos personagens. O roteiro de Twin Peaks não foca inteiramente no mistério. E outra, nem tem em sua totalidade um clima de suspense. Pelo contrário, há sempre uma musiquinha de jazz no fundo para contrastar com as situações.

E isso não se encaixa apenas para o roteiro da série. Várias outros aspectos técnicos fizeram dela pioneira. Um dos maiores talvez seja por exemplo o visual e a trilha sonora. Uma das grandes inovações de Twin Peaks foi tentar trazer um aspecto cinematográfico para as telinhas. Portanto, Lynch veio com o pacote completo. O visual da série é excelente, principalmente nas cenas envolvendo o "além".

A trilha sonora também acabou se tornando icônica, em especial a música de abertura, intitulada "Falling". Há outras músicas que são recorrentemente reproduzidas durante a série e que irão facilmente entrar na sua cabeça. Antes que você perceba, estará tentando "cantar" os toques, rs.

Os personagens são muitos. Temos vários arcos e vários personagens que tem tramas diferentes dos outros, com cargas dramáticas diferentes. Alguns servem para alívio cômico (como a adorável assistente Lucy e o tapado policial Andy), outros carregam mistérios não envolvidos com a trama Laura Palmer e outros estão diretamente conectados à ele. Ao longo da série, você aprende a selecionar os personagens que você gosta ou não e não é nada difícil, para ser sincero.

Elenco principal da terceira temporada (esq. à dir.): Wendy Robie (Nadine), Everett McGill (Ed), James Marshall (James), Sheryl Lee (Laura Palmer/Maddie Fergunson), David Lynch (criador da série/Gordon Cole), Kyle MacLachlan (Dale Cooper), Sherilyn Fenn (Audrey Horne), Madchen Amick (Shelly), Dana Ashbrook (Bobby) e Peggy Lipton (Norma).

O resultado de Twin Peaks é uma combinação estranha de vários elementos jogados num grande pote de bom humor. Há muito mistério, há muito drama, há momentos hilários. E isso poderia fazer muito bem uma série normal se não tivesse o cérebro de Lynch envolvido no meio. O grande destaque de Twin Peaks é sua trama sobrenatural surreal e bizarra.

Nós temos uma ideia original e bastante criativa do além aqui nas Montanhas Gêmeas. Uma ideia que, pasmem, até hoje não foi explicada completamente, devido ao cancelamento repentino da série em 1991, quando seu segundo ano terminou de forma chocante e com um gancho enorme que permaneceu aberto por quase duas décadas. 

Mas se a série era um sucesso, por quê foi cancelada na segunda temporada? Acontece que havia muitas divergências entre os autores e a emissora. Lynch que sempre procurava fazer algo submersivo e nada genérico não queria revelar o assassino de Laura Palmer. A ABC e Frost queriam. Então no nono episódio da segunda temporada, vimos este arco ser finalizado. Se o principal mistério da série foi resolvido no meio da temporada, o que acompanharíamos nos 13 episódios restantes?

Twin Peaks se viu caindo, tanto na qualidade da história quanto na audiência nestes fatídicos episódios. Personagens desnecessários entravam na trama só pra ocupar espaço, relacionamentos eram abertos do nada, um novo mistério era introduzido envolvendo um assassino do passado de Cooper, entre outros. A trama ficava menos interessante a cada episódio, portanto os espectadores acabaram perdendo o apetite pela série.

O que é uma pena pois creio que muitos nem chegaram a assistir os dois últimos episódios, que são sem dúvidas uns dos melhores da série. Como já falei, a segunda temporada terminou com um gancho gigantesco. A ABC no entanto resolveu colocar a série em um hiatus, uma pausa em produção. Um ano depois, sem mais notícias, eles revelaram que Twin Peaks não iria voltar para uma terceira temporada.

Embora a série tenha tecnicamente terminado aí, ainda tivemos outro material para montar toda cronologia: Twin Peaks - Fire Walk With Me. Este é na verdade um longa metragem dirigido pelo próprio Lynch, lançado em 1992. Ele é uma prequel da primeira temporada e acompanha os últimos dias da vida de Laura Palmer. Portanto, vemos muito do que só ouvimos falar nos episódios. Ele também traz a trama do assassinato de Teresa Banks, jovem que teve morte semelhante à de Laura e causa a ida do Agente Cooper até Twin Peaks. É um filme deveras interessante pois serve como complemento à história original e finalmente podemos ver como Laura era. A Sheryl Lee mandou muito bem no filme.

Para terminar o artigo e não querer estendê-lo, só devo dizer que todo fã de séries deve ver Twin Peaks. É tipo uma obrigação. É uma série que contribuiu bastante, não só para a televisão mas para o cinema também. Estou bastante curioso para ver o que o Twin Peaks: The Return tem reservado para gente. Já começamos com o pé direito já que vai ser uma grande surpresa, pois a história da nova temporada permanece um mistério. Não sabemos como vai ser a abordagem dos antigos personagens e dos trocentos novos que serão introduzidos nestes 18 episódios.

A nova temporada, além de trazer grande parte do elenco original (cerca de 36 atores), também terá uma porrada de atores novos e bastante conhecidos. Só para vocês terem uma ideia: Naomi Watts, Laura Dern, Monica Belluci, Jennifer Jason LeighAmanda Seyfried, Michael Cera, Jim Belushi, Meg Foster, Ernie Hudson, Sara Paxton, Tom Sizemore, Robert Knepper, Ashley Judd, Matthew Lillard, entre outros.

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