22 de julho de 2017

Crítica: Despertar dos Mortos (1978)


Quando não houver mais espaço no inferno, os mortos caminharão pela terra. 

Após ser catapultado ao sucesso com o revitalizador A Noite dos Mortos-Vivos (1968), George A. Romero passou uma década trabalhando em outros projetos que não seguiam o tema zumbi. Nesse espaço, ele lançou uma comédia romântica e três filmes de horror: A Estação da Bruxa (1973), Exército de Extermínio (1973) e Martin (1978), sendo o segundo ainda inspirado em epidemias. Quando voltou com Despertar dos Mortos, segundo capítulo da trilogia original, foi recebido com elogios de todas as partes e sem dúvidas, o filme se tornou um marco no gênero. Erroneamente traduzido aqui no Brasil, o título era para ser "Amanhecer dos Mortos" para ficar de acordo com A Trilogia dos Mortos. O segundo capítulo ajudou mais ainda a formular os zumbis que conhecemos hoje. Já em cores, o filme traz a chegada do Tom Savini para comandar os efeitos violentos nessa nova etapa. Aqui temos mortes mais elaboradas e muita carnificina, abandonando o formato simplista do primeiro.

Um dos pontos mais elogiados de Despertar é que Romero traz novamente uma crítica social como pano de fundo para a história onde a epidemia zumbi já vem acontecendo há uns dias. No meio de tudo, quatro sobreviventes se refugiam em um shopping center. Com mais de 2h de duração, o filme assume uma imagem de sátira e com uma pegada um pouco mais cômica - propositalmente - onde vemos Romero apontar o dedo no capitalismo e na desconstrução da sociedade americana. Em uma cena interessante, uma mensagem automática é tocada no sistema sonoro do shopping e os zumbis parecem ouvir atentamente a ela. Sentiram a indireta?


É interessante falar que o filme é um dos mais cultuados de sua década e até hoje figura listas de alto escalão, porém vou vir aqui fazer o diferentão e dizer que achei o filme mais fraco da trilogia. Embora tenha uma forte mensagem, o filme não parece ter envelhecido bem. Ao falar isso, não quero dizer que o filme seja ruim, pois mesmo sendo fraco, o filme está acima de muitos lançados recentemente. Isso por que, se Noite criou os zumbis, Despertar é um passo adiante à popularização dos zumbis e contém umas das primeiras manifestações das criaturas trazendo desde o processo de transformação até a devoração de suas vítimas, como numa cena onde os zumbis abrem a barriga de uma vítima.

Despertar tem uma abordagem bastante depressiva até, pois com o pouco número de residentes no shopping, há uma sensação de isolamento e solidão maior, coisa que o remake, Madrugada dos Mortos (2004), não aprofunda já que tem mais de quinze abrigados. Essa sensação é potencializada quando por exemplo, temos a primeira baixa no grupo e a simples ausência do personagem já caracteriza bem o que eu quero dizer.

Romero também providencia cenas icônicas e bem dirigidas que definitivamente merece destaque, como uma cena onde um zumbi tem a parte superior de sua cabeça decepada pela hélice do helicóptero. Outras também são memoráveis como a já citada mutilação de um personagem ou uma cena onde um personagem distraído se vê preso num caminhão rodeado de zumbis.


Para falar a verdade, tem uma cena em particular que eu adorei. Aviso que é SPOILER, então se faz questão, não leia este parágrafo. Perto do final, um dos protagonistas, o Stephen (David Emge), é mordido por alguns zumbis enquanto tentava escapar pelo elevador. O bacana da cena é que vemos ele ser mordido e no próximo take, vemos o elevador se abrir e ele sair mancado e ensaguentado, já transformado. Achei que a cena teve o impacto perfeito e funciona muito bem. Isso ajuda bastante no final do filme, que é ótimo.

Ou seja, é claro que Despertar é um bom filme e que adianto logo, todos os fãs de terror devem assistir para tirar as próprias conclusões. Eu assisti e tirei. Vamos ao que eu não curti no filme: Primeiro, a trilha sonora. Li que Romero queria mesmo dar um ar mais cômico ao filme para dar uma pegada mais satírica, mas as músicas agitadas tiram completamente o clima de várias cenas, o que realmente é chato. Dario Argento, renomado cineasta italiano, lançou o filme na Europa sob o título Zombie e com uma edição diferente, editada com quase 25 minutos a menos e uma trilha sonora nova composta pelo Goblin (Suspiria). O resultado é bem mais notável.

O segundo ponto: a maquiagem. Todos sabemos que Tom Savini é um cara caprichadíssimo mas ele cometeu vários erros aqui em Despertar. Um deles foi a maquiagem dos zumbis. Numa tentativa de homenagear Noite, ele optou por pintá-los com uma tinta cinza, mas a aparência acabou ficando empobrecida e, choquem, azulada, na versão final. Outra coisa foram alguns efeitos, como numa cena onde o zumbi morde o braço de uma vítima e a carne sai uma borracha amarela mas NENHUM SANGUE. Tudo bem, erros acontecem, pois o longa ainda tem cenas boas e não tira o mérito final, além de que Savini se redimiu ao realizar os efeitos excelentes de Dia dos Mortos (1985) e também dirigir o remake A Noite dos Mortos-Vivos (1990).


O terceiro e também não menos importante é o ritmo do filme. Romero desenvolve bem os personagens que por serem poucos, tem bastante tempo em tela e não ficam superficiais. Porém, ele gasta muito tempo em cenas desnecessárias para tentar provar sua visão crítica no assunto que escolheu. Isso faz com que o filme fique enfadonho e cansativo, o que poderia ter sido resolvido com uns minutos cortados como a versão do Argento.

Como destaquei em vários pontos da crítica, nem de longe é um filme ruim mas para mim foi um pouco decepcionante ao conferir um dos maiores clássicos do gênero e me deparar com vários "defeitos", além de ser o capítulo mais fraco da trilogia, na minha opinião. Ainda assim, Despertar dos Mortos merece destaque e também deve ser assistido por qualquer um que adore o gênero.

por Neto Ribeiro

Título Original: Dawn of the Dead
Ano: 1978
Duração: 140 minutos
Direção: George A. Romero
Roteiro: George A. Romero
Elenco: David Emge, Ken Foree, Scott Reiniger, Gaylen Ross

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