4 de julho de 2017

Crítica: O Homem Sem Sombra (2000)


Paul Verhoeven é um nome polêmico em Hollywood. O cineasta holandês tem um constante relacionamento conturbado com a crítica profissional, sendo elogiado por filmes como Robocop (1987), Instinto Selvagem (1992) e A Espiã (2006) e massacrado por filmes como Showgirls (1995) e Tropas Estelares (1997). Seu nome voltou com tudo aos holofotes com o ótimo Elle (2016), que rendeu uma indicação ao Oscar para a francesa Isabelle Huppert. O longa que vos escrevo hoje é um que não é muito lembrado na carreira dele, O Homem Sem Sombra, que é uma adaptação da história "O Homem Invisível" de H. G. Wells.

Nessa versão que mistura ficção científica com horror, temos o ótimo Kevin Bacon no papel do Dr. Sebastian Caine, um cientista que desenvolve um soro capaz de deixar o receptor invisível. Junto com sua equipe, ele tenta conseguir a aprovação dos militares para poder fazer testes em humanos, mas sabendo que não será concedido, resolve mentir para todos e ser o primeiro a receber a dose.

Após alguns dias, eles percebem que o efeito não está passando. É necessário que Sebastian permaneça em quarentena para que a equipe possa trabalhar num antídoto. No entanto, o cara é tão arrogante e impaciente que é óbvio que ele não vai seguir as regras e arruma um jeito de escapar do laboratório para curtir suas novas habilidades.


Sebastian então começa a sucumbir à sua condição, chegando a aproveitar que está invisível pra fazer o que sempre quis fazer, como transar com sua vizinha mesmo que seja através de um bizarro estupro. Nesse ponto, o filme começa a se transformar. Com Sebastian descobrindo que sua ex e colega de trabalho Linda (Elisabeth Shue) está namorando em segredo seu outro colega de trabalho Mark (Josh Brolin), ele se torna completamente violento e inicia uma verdadeira zona de medo dentro do laboratório.

Quem conhece o trabalho de Verhoeven sabe que seus filmes não costumam ser muito convencionais. Na época do lançamento deste, ele afirmou que queria fazer um filme mais comercial, portanto é compreensível que esse seja inferior à outros trabalhos do mesmo. Pra mim, ter essa proposta não é algo ruim, aliás nem todo filme tem a obrigação de ser intelectual ou material pra Oscar.

Embora O Homem Sem Sombra seja um bom blockbuster, o filme erra em ter duas identidades e não saber conciliá-las de forma correta, já que as duas são bem definidas. A primeira parte do filme é uma interessante ficção científica e a segunda parte se torna num filme de terror com toques de slasher. O problema é que o roteiro não trabalha bem a transição entre as partes e isso soa bastante estranho.


Desde o início é perceptível que Sebastian não presta e tem uma personalidade terrível, mas quando seu personagem se torna maligno, simplesmente não me convenceu. Por um lado é interessante pois em certos momentos nos faz pensar o que faríamos se fossemos invisíveis. Mas ele se tornou tão brutal de uma forma tão brusca que não pareceu bem desenvolvido toda a conversão dele.

Os efeitos especiais, para época, não estavam ruins. Claro que com uma visão atual, podem parecer datados já que temos alguns bem melhores mas lá no início do século, foram efeitos criativos e bem interessantes. O departamento chegou a receber uma indicação ao Oscar de Melhores Efeitos Especiais em 2001, perdendo pra Gladiador de Ridley Scott!

Apesar de tudo, o filme tem bons momentos. Como um fã de terror, os últimos 40 minutos foram um prato cheio pra mim. Muitos não gostam pois faz com que o filme se torne muito simples em relação ao que foi apresentado inicialmente. Tipo "vamos trancar todos e matar um a um". Mas isso se torna divertido pois há aquela típica caçada entre gato e rato com o Sebastian invisível fazendo vítimas pela instalação.

De forma geral, O Homem Sem Sombra pode ser apenas um filme divertido e bem aquém de sua ambição inicial. O roteiro, o elo mais fraco da produção, acaba se tornando preguiçoso em esclarecer ou trabalhar alguns detalhes que o próprio traz à tona. Talvez nas mãos de alguém mais paciente pra explorar o conceito, este seria um ótimo horror sci-fi, já que a direção de Verhoeven não é falha.

por Neto Ribeiro

Título Original: Hollow Man
Ano: 2000
Duração: 112 minutos
Direção: Paul Verhoeven
Roteiro: Andrew W. Marlowe
Elenco: Kevin Bacon, Elisabeth Sue, Josh Brolin, Kim Dickens, Greg Grunberg

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