9 de julho de 2017

Crítica: Terror em Silent Hill (2006)


Todo mundo que entende um pouco de cinema sabe o quão difícil é adaptar um jogo para as telonas. Grande parte das tentativas são falhas. Essa tarefa fica ainda mais árdua quando o jogo é de terror, pois geralmente, o filme não capta 20% da atmosfera dos games e muitas vezes nem adapta a história corretamente. Falamos sobre isso no nosso artigo Filmes de terror baseados em jogos, escrito em 2005, mas o assunto do post de hoje é de apenas um deles, um dos poucos filmes que conseguiram se desviar da maldição e entregou um puta exemplo de como fazer um filme de terror baseado no jogo.

Terror em Silent Hill é uma adaptação cinematográfica da série de jogos Silent Hill, iniciada em 1999 e que atualmente possui cerca de 12 jogos ao total. A história da franquia se passa numa cidade fictícia que dá o nome ao jogo. Na trama deles, sempre vemos uma pessoa relativamente "normal" adentrando Silent Hill, que tem uma característica única: uma grande névoa cinzenta que cobre toda sua extensão.


A história da cidade é bem obscura, envolvendo cultos religiosos, o assassinato de uma garota inocente e um grande incêndio que pôs fim à atividade de Silent Hill. Desde então, ela é habitada por criaturas horrendas, geralmente controladas pela força da garota assassinada, cujo rancor se tornou tão forte que influencia toda a cidade.

No filme, acompanhamos Rose DaSilva (a excelente Radha Mitchell, A Epidemia), uma mulher cuja filha, Sharon (Jordelle Ferland, Caso 39), sofre de terríveis pesadelos e sonambulismo. Quando remédios não mais funcionam, Rose decide levar aos extremos para tentar ajudar a filha: ela decide ir à Silent Hill, um lugar que Sharon murmura quando está tendo seus pesadelos. As duas então partem para a cidade fantasma sem avisar ao marido, Christopher (Sean Bean, A Morte Pede Carona). No entanto, ao adentrarem a cidade, elas sofrem um acidente. Quando Rose desperta, não encontra mais sua filha. Ela então começa uma aventura assustadora dentro da cidade em busca de Sharon, acompanhada de Cybil (Laurie Holden, O Nevoeiro), uma policial desconfiada que as seguiram até lá.


Silent Hill tem muitos pontos interessantes para ser comentados: o primeiro é o roteiro. Assinado por três mãos, o material mixa um pouco a fórmula da aventura do herói, descobrindo um novo mundo, com o terror. As criaturas e locações bizarras que Rose encontra na cidade são postas na hora certa e o roteiro sabe como manter o mistério e prender o público em suas duas horas de filme. Isso pode deixar alguns incomodados, mas o filme nunca parece lento e o enredo é muito bem desenvolvido.

Segundo ponto: o clima. Estamos falando de um filme baseado em um dos jogos mais atmosféricos que eu já vi, do design até a trilha sonora, os games da franquia são de arrepiar o cabelo da nuca. A adaptação acertou em cheio em trazer o mesmo clima para o filme, desde a apresentação da versão obscura da cidade ao som da primeira sirene até cenas bizarras como as da escola ou do hotel.

O terceiro ponto: a fotografia e a direção de arte na construção das locações. Rose se depara com vários locais da cidade, como a rua principal, escola, hospital e a igreja, que é o cenário final. Todas elas são caprichadas ao extremo, sujas e sem vida. O ápice vem quando a cidade passa pela transformação, anunciada pela sirene, onde os monstros ganham vida.


O quarto ponto: a protagonista Radha Mitchell interpreta uma versão feminina de um personagem do primeiro jogo, principal fonte de inspiração da adaptação. Pra quem conhece seu trabalho, sabe que a atriz é extremamente competente e aqui também não decepciona. Laurie Holden, Alice Krige e Jordelle Ferland também merece menções.

O último ponto é justamente a maquiagem e os efeitos das criaturas. Puta que pariu! Eu tinha o DVD brasileiro do filme e lembro que no making of haviam vídeos de cada uma das criaturas, desde a concepção até a aplicação da maquiagem. Em algumas são usadas efeitos CGI para certos detalhes, mas saibam que no geral todas foram feitas manualmente!

A direção de Christophe Gans sabe conduzir a história e resulta em muitos bons momentos. Ele não maneira na violência e por conta disso acaba entregando duas cenas ÉPICAS: a primeira é quando Pyramid Head arranca a pele inteira de uma das fiéis em frente à igreja e a segunda é o fenomenal festival de gore que é o massacre da igreja, quando Alessa ressurge e sai matando geral com os arames.


Creio que uma das poucas coisas que não gosto nesse filme é o personagem de Sean Bean, introduzido na história sabe por que? Os produtores não gostaram muito do destaque de personagens femininas, que são muitas, e pediram pra colocar o Christopher, acreditam? As cenas da busca dele pela esposa e filha quebram um pouco o clima e não funcionam muito bem durante o desenvolvimento, embora o final seja excelente e evoque o lado emocional do público.

Como vocês podem ver, adoro esse filme. Para mim, é a melhor adaptação de um jogo já feita. E o melhor é o seguinte: como um filme independente, ou seja, pra quem não conhece os jogos, ainda consegue ser extremamente eficiente e não se apoia apenas no fan service. Quer coisa melhor que essa?

por Neto Ribeiro

Título Original: Silent Hill
Ano: 2006
Duração: 125 minutos
Direção: Christophe Gans
Roteiro: Roger Avary, Christophe Gans, Nicolas Boukhrief
Elenco: Radha Mitchell, Sean Bean, Laurie Holden, Deborah Kara Unger, Kim Coates, Tanya Allen, Alice Krige, Jodelle Ferland


Um comentário :

  1. "Para mim, é a melhor adaptação de um jogo já feita." Para mim, não é só a melhor, mas a única que presta

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