18 de setembro de 2017

Crítica: Confissões de um Necrófilo (1974)



Na sala de jantar, sentam à mesa cadáveres, uma mulher seminua e um homem que, usando um osso retirado de uma perna humana, bate em um tambor feito de entranhas. Essa cena é perfeita para descrever um pouco do que o espectador pode esperar de Confissões de um Necrófilo (Deranged), filme lançado em 1974 pelos diretores Jeff Gillen e Alan Ormsby. 

O roteiro é inspirado na história do serial killer americano Ed Glein, que não só matava as suas vítimas, mas guardava partes do corpo delas: quando a polícia entrou em sua casa, encontrou crânios servindo como enfeite para o quarto, um abajur feito de pele, uma coleção de vaginas, entre outras coisas assustadoras. No filme - que obviamente dispõe de certa liberdade criativa em relação aos crimes de Glein -, o psicopata se chama Ezra Cobb (Roberts Blossom) e é apresentado como um homem que ficou órfão de pai muito jovem e, por isso, cresceu muito ligado à mãe (Cosette Lee). Quando ela morre, Ezra é levado a um estado de psicose cada vez maior: certa noite, ele escuta a voz da mãe e vai até o cemitério para trazer seu corpo de volta para casa. É o início de uma sequência de atos que vão mostrar que ele está longe, muito longe de ser um homem normal.


A primeira coisa que chama a atenção é a presença de um narrador cuja participação vai além da voz. Logo na primeira cena, o jornalista Tom Sims (Leslie Carlson) se dirige diretamente ao público (recurso conhecido no cinema como quebra da quarta parede) para avisar sobre a veracidade dos crimes do protagonista e também para dar o alerta de que "não é uma história para fracos ou portadores de problemas cardíacos". O que parecia ser uma boa estratégia mostra-se algo totalmente desnecessário conforme a narrativa avança e percebemos que os atos de Ezra falam por si só - nos momentos sem a presença do jornalista, sequer sentimos a falta das suas explicações. Ou seja, qual a seria a sua função, além de um mero capricho do roteiro?

Tirando esse pequeno detalhe, Confissões de um Necrófilo (o título em português ficou horrível, já que Ezra está mais para um necromaníaco do que um necrófilo) é um filme eficiente dentro da sua proposta. De maneira simples e até um pouco cartunesca, o longa coloca o espectador diante de uma mente perturbada e tem em seu principal trunfo a atuação de Roberts Blossom. 

Oscilando entre ingenuidade - destaque para o momento em que, sem se dar conta, confessa o paradeiro de uma vítima para o vizinho - e perversão, Blossom está perfeito no papel, que por pouco não caiu nas mãos de Harvey Keitel (Cães de Aluguel) ou de Christopher Walken (Prenda-me Se For Capaz). Extremamente natural como Ezra, o ator é capaz de fazer crer que estamos diante não de uma interpretação, mas, sim, de um retrato documental do que realmente é um assassino desequilibrado. Com um simples olhar - como na cena em que conhece a namorada de Brad (Brian Smeagle) -, ele consegue demonstrar o que se passa na cabeça do protagonista. Uma atuação que chega aos pés do que Jack Nicholson fez em O Iluminado (1980), para dizer o mínimo. 


Sem exagerar no gore (nesse projeto, encher a tela de sangue gratuitamente seria uma tentação para muitos cineastas), os diretores Jeff Gillen e Alan Ormsby ainda encontram espaço para inserir uma dose de humor mórbido: a reação de Ezra quando Maureen (Marian Waldman) se comunica com o marido morto, por exemplo, é impagável. 

Na parte mais técnica do longa, a trilha sonora, assinada por Carl Zittrer, se encaixa corretamente nas cenas em que se faz presente. Já a maquiagem, embora possa ser considerada "tosca" por muitos, está dentro dos padrões da época, recriando cadáveres grotescos que ninguém gostaria de encontrar pelo caminho. 

Quem assiste à obra esperando por violência extrema, sangue, tortura e ainda pela necrofilia que aparece no péssimo título vai se decepcionar. Na verdade, o filme é o oposto disso: contido no horror que se propõe a mostrar, serve mais como estudo de personagem. Uma pena que Confissões de um Necrófilo não seja lembrado como um dos clássicos de terror dos anos 70 ao lado de O Exorcista (1973)A Profecia (1976)Halloween - A Noite do Terror (1978), entre outros. 

por Marcelo Silva

Título Original: Deranged
Ano: 1974
Duração: 84 minutos
Direção: Jeff Gillen e Alan Ormsby
Roteiro: Alan Ormsby
Elenco: Roberts Blossom, Cosette Lee, Leslie Carlson, Marian Waldman, Micki Moore, Pat Orr, Brian Smeagle, Robert Warner

2 comentários :

  1. Anônimo9/20/2017

    ah... pessoal de hj em dia acostumado com james wan e afins não vão curtir isso não... apesar de o filme ser ótimo

    ResponderExcluir
  2. ola, gostei da critica no dia 23 de outubro o culto de chuky sera lançado pela netflix nos Estados unidos se forem de la quero que faça a critica

    ResponderExcluir