25 de setembro de 2017

Crítica: Mãe! (2017)


Hipocrisia é algo bastante interessante, não acham? Nas últimas semanas, após o lançamento de It - A Coisa (2017), acompanhamos as impressionantes notícias do desempenho do filme, quebrando recordes monstruosos, principalmente para um filme de terror R-Rated (+18) e tirando ninguém menos que O Exorcista (1973) da posição de maior filme do gênero comercialmente. E para qualquer fã de terror, essas são notícias incríveis. O gênero finalmente tendo o reconhecimento que merece, além de que It é um ótimo filme. No entanto, sempre vejo o pessoal, não só fã do terror, reclamando que ao invés de remakes e reboots, etc, deveriam investir em algo original. Entra mother!, um filme longe de ser mainstream mas com um elenco estelar repleto de grandes nomes, um roteiro sensacional, uma direção mais ainda e mesmo assim, amarga nas bilheterias, arrecadando no primeiro final de semana apenas $18 milhões. Pior: baseado em notas do público, mother! ganhou uma média F (que seria um 0) no CinemaScore. Óbvio que comparar os dois é sujo, um foi feito para as grandes massas, divertimento de qualidade; o outro é um horror subversivo, cabeça, feito pra incomodar e refletir. 

Não se deixem levar pelos comentários maldosos. mother! é um dos melhores filmes do ano. Darren Aronofsky, em seu sétimo crédito como diretor, se estabelece como um dos maiores nomes da indústria atual, entregando um projeto ousado, com muitos colhões e que quase nenhum, e repito, quase nenhum diretor teria a coragem de realizar tamanha façanha com uma carreira estabelecida e principalmente em um estúdio grande, com atores do nível como Jennifer Lawrence, Javier Barden, Ed Harris e a excelente Michelle Pfeiffer, voltando com tudo aos holofotes.


Aronofsky toma as rédeas de uma história longe do convencional, embora o trailer e até mesmo o primeiro ato pareçam ser. Numa casa de campo isolada de tudo vive um casal (Jennifer Lawrence e Javier Barden). Os nomes dos dois, assim como de todos os outros personagens, nunca são mencionados no filme, vejam só. Ambos vivem na casa onde Ele cresceu, destruída décadas antes por um incêndio mas que ela conseguiu reconstruir do zero, partindo do sonho de criar seu próprio paraíso.

A calmaria é interrompida pela chegada de um homem (Ed Harris), que diz ter se enganado, achando que lá era uma hospedaria. Ele então pede para o homem passe a noite lá, já que está tarde e logo forma uma amizade com o mesmo. No dia seguinte, alguém bate na porta: A mulher dele (Michelle Pfeiffer). A partir deste ponto, eu sinceramente não posso mais falar nada sobre a história ou seria um spoiler.


É neste ponto que Aronofsky transforma o filme em uma experiência dolorosamente desconfortável e não para mais. Os convidados são folgados, curiosos e não parecem ter um mínimo de educação. Isso reflete na personagem de Lawrence, que observa em como o marido parece não ligar muito para tudo isto mas se mostra extremamente incomodada com toda a situação desde a primeira batida na porta. A atriz entrega a melhor atuação de sua carreira (bem mais desenvolvida do que em O Lado Bom da Vida, pela qual ganhou o Oscar), em uma performance introspectiva, cheia de reações e poucos diálogos por grande parte do longa. Ela transmite perfeitamente tudo o que a personagem está sentindo apenas por suas expressões. O diretor também é responsável pelo êxito já que sabe aproveitar a atriz ao ponto de sempre focar a câmera nela e seguir a história a partir dela, acompanhando-a para onde ela vá. 

Esse desconforto é importantíssimo para os rumos que a história tomará ao longo dos 121 minutos. No início da pré-produção, Aronofksy descreveu com cautela seu novo filme, o chamando de "uma viagem intensa com elementos de home invasion". Mas mother! vai bem mais além disso, muito mais. Não espere um filme simples, mastigado, com uma história convencional, pois isto não será o que você vai encontrar. O diretor, que assina o roteiro, cria um filme extremamente autoral, inspirado e sem dúvidas original.


mother! funciona como uma bomba-relógio. Quanto mais tempo passa, mais você fica na ponta da cadeira, mais se destaca a sensação de antecipação, a sensação de que algo vai explodir bem na sua frente. Até nas cenas de sossego e silêncio, fica esta sensação. E quando explode, meus caros, não é brincadeira. Depois de dois atos desagradáveis (no bom sentido), o terceiro cria um grande show de desgraceira, gritaria e desconexão que deixarão o espectador, no mínimo, atordoado. É um festival de horror e pura maluquice que te fará gritar os melhores palavrões que virão a aparecer em suas mentes.

Mas o filme é tão complicado assim? Não mesmo. É um filme bastante subjetivo, o público tem que parar, pensar e repensar. Mas quando você junta as peças, finalmente compreenderá a grandiosidade e a qualidade que mother! possui. É um filme lindo se não fosse trágico. O modo que Aronofsky trabalha o tema principal é no mínimo genial. Se você ainda não viu o filme, pare por aqui. Nos próximos parágrafos haverão spoilers, pois irei debater mais afundo sobre o enredo.


Lembra que falei que os nomes dos personagens não eram mencionados? Isso não é à toa. Nos créditos, todos eles são creditados como sua função na narrativa, por exemplo: Jennifer é a "mãe", Javier é "Ele", Harris e Pfeiffer são "homem" e "mulher" e por aí vai... Mas notem que o personagem de Javier é o único que tem o nome iniciado com letra maiúscula. Por que? Ele é Deus. Já Lawrence representa a mãe natureza, uma criação de Deus que imagina ser uma força tão importante quanto ele mas no final das contas acaba ficando abaixo na hierarquia. A casa no meio do nada é a Terra e é por isso que a mãe prezava tanto pelo estado dela. Em certa cena, ela diz que quer transformá-la em um paraíso.

Essa base religiosa no roteiro ainda vai além, apresentando Harris e Pfeiffer como Adão e Eva. Ele é o primeiro a aparecer e na cena em que está vomitando, a mãe consegue perceber um corte em suas costas. No dia seguinte, a Eva aparece, relacionando diretamente o corte na costela como a criação dela. O casal, ao entrar no escritório d'Ele, seu espaço de criação, quebram acidentalmente o cristal e são expulsos, assim como Adão e Eva foram expulsos do paraíso. Os filhos? Caim e Abel. Lembrem-se que na Bíblia, Caim mata Abel, do mesmo jeito do filme.


Após isto, Ele cria seu poema ao descobrir que a mãe está grávida. O texto é vendido e faz bastante sucesso lá fora (sacaram?). Ele tem uma agente literária (Kristen Wiig) que o ajuda e ela aparece no terceiro ato durante a festa. Ela pode representar a igreja e esta teoria é sustentada quando em uma cena, a vemos matando pessoas e tentando controlar tudo. E o que são todo aquele pessoal desconhecido na casa? A humanidade. Aronofsky faz algo interessantíssimo no final, onde na minha concepção, ele resume milhares de anos em 35 minutos. Vemos o homem chegar em sua casa, na Terra, se acomodar e logo destruir. Quanto mais a casa era destruida, mais dores a mãe sentia. Na chocante cena onde as pessoas devoram o bebê, é uma analogia à como elas usufruem e destroem tudo.

Não bastasse toda essa jogada genial, Aronofsky ainda faz a escolha controversa de mostrar Deus como um indivíduo egoísta e manipulador. Tem que ter muita coragem pra fazer algo assim nos dias atuais e merece sim respeito como artista.


É uma película com bastante camadas, você não vai conseguir notar todas assistindo apenas uma vez e é por isso que estou muito ansioso pra rever quão antes possível. Digo logo que não é um filme pra todos, não está aqui pra agradar, está aqui pra abrir a ferida e jogar sal nela. Aronofsky dá um passo ousado ao fazer um filme desse nível, é basicamente a essência do cinema e sabe por que digo isso? Por que é uma história que não vai sair tão cedo de sua cabeça e isto é no melhor sentido da frase. Recomendadíssimo! 

por Neto Ribeiro

Título Original: mother!
Ano: 2017
Duração: 121 minutos
Direção: Darren Aronofsky
Roteiro: Darren Aronofsky
Elenco: Jennifer Lawrence, Javier Barden, Michelle Pfeiffer, Ed Harris, Domnhall Gleeson, Brian Gleeson, Kristen Wiig

4 comentários :

  1. Eu já esperava que esse filme não é tão ruim como a mídia está dizendo,infelizmente o filme não é um filme mastigável,o público não quer saber de filmes assim.

    Depois dessa crítica fiquei mais animado pra assistir esse filme.

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  2. SPOILER!!!!!!!!!


























    Eu tenho uma interpretação diferente em relação ao bebê, para mim ele é Jesus Cristo, com direito a toda a saga, desde a adoração pelas mãos do povo, até a sua morte pelas mãos desse mesmo povo, que logo em seguida se arrepende e passa a come-lo (homilia) e aí entra Ele e pede para a mãe perdoar a humanidade!

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    1. Anônimo10/10/2017

      Você não entendeu o filme neh?haha Não so o bebe é Jesus Cristo,como TODO o filme é uma referencia bíblica(tirando o liquido amarelo que ela toma)

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  3. ESSE FILME É GENIAL, um título mt usado, e as vezes sem o devido valor, mas Mãe! é isso, GENIAL, a metáfora do Deus egocêntrico, arrogante e vingativo do primeiro testamento tá lá, e do Deus carinhoso, amoroso, com compaixão e afetivo do novo testamento tbm, a criança como Jesus, morta e devorada por nós, humanos para tentar conseguir perdão, o sacerdote marcando as pessoas na testa como a igreja e os "representantes de Deus na Terra" é genial, o escritório como o Éden trancado para os visitantes, tudo isso é o q o filme passa, eu posso dizer sem medo, esse filme está no meu top5 da vida, e uma experiências para os amantes de cinema, analogias, metáforas, simbolismos tudo está lá, eu não vi críticas, videos, podcasts nem ao menos trailers, fui ver com mente aberta e sai do cinema em choque, o melhor do ano? COM ABSOLUTA CERTEZA

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